Aqui é o Meu Lugar
Com boa direção de Sorrentino, filme sofre com enredo
26/07/12 às 18:29 - Por Claudia Ideguchi
Aqui é o Meu Lugar
This Must Be the Place
Itália, França, Irlanda , 2011 - 118 min. Comédia, Drama.

Direção: Paolo Sorrentino
Roteiro: Paolo Sorrentino
Elenco: Sean Penn, Frances McDormand, Judd Hirsch, Kerry Condon, Harry Dean Stanton e Liron Levo
Sinopse: Cheyenne é um astro da música de 50 anos de idade, afastado dos palcos há mais de duas décadas. Quando recebe a notícia que seu pai, que não vê há 30 anos, está muito doente, resolve visitá-lo em Nova Iorque, mas chega tarde demais. Decidido a encontrar aquele que foi o algoz do seu pai nos tempos da guerra, no campo de concentração de Auschwitz, ele sai em busca pelos Estados Unidos numa viagem de descoberta pela América.

Misture o visual de Robert Smith (The Cure) com a leseira gerada por muitas drogas de Ozzy Osbourne e você terá Cheyenne, roqueiro aposentado e protagonista de Aqui é o Meu Lugar. Há 30 anos sem falar com o pai, um sobrevivente do holocausto, Cheyenne é obrigado a sair de sua mansão na Irlanda e ir para o Estados Unidos quando ele fica muito doente, se envolvendo em uma inusitada caça ao nazista que seu pai tentou capturar por anos a fio.

 
O filme alterna momentos de humor negro, com vingança pastelônica e temática on the road. A fotografia de Luca Bigazzi tem seu destaque na segunda parte do filme, com Cheyenne rodando em uma pick-up através dos estados norte-americanos e nos dando aquele gostinho de filtro rise do instagram. Mas não é só o visual do filme que impressiona. O diretor italiano Paolo Sorrentino nos agracia com tomadas incríveis e nada óbvias, toda a direção do longa saindo da zona de conforto, se arriscando e alcançando um resultado satisfatório. 
 
O que é um paralelo muito interessante com o protagonista. Recluso, sua história é marcada pelo medo de arriscar e seguir em frente. Cheyenne tem medo de avião (vai até Nova Iorque de navio), tem medo de agulhas, tem medo de voltar a cantar... "O medo nos salva", diz em certa altura uma personagem. Nem sempre. Em sua bizarra e inesperada aventura, Cheyenne vai, eventualmente, crescer e deixar para trás alguns de seus receios.
 
 
Notavelmente um ator impressionante, Sean Penn caminha sobre gelo fino com sua interpretação. Sua personagem é visualmente teatral e a chance de a atuação também ter um tom exageradamente caricato era enorme, porém, Penn consegue equilibrar e dosar essa teatralidade, deslizando apenas algumas vezes. Frances McDormand, como a esposa cuca fresca e pragmática de Cheyenne, é um espetáculo a parte e isso incomoda porque não temos o suficiente dela.
 
O que traz o maior problema do filme, a estruturação do roteiro. Com uma história no mínimo interessante nas mãos, Sorrentino começa pequenos arcos e introduz novos personagens a todo momento e são poucos os escolhidos para ter algum desenvolvimento real. O argumento para isso pode ser que a vida é assim mesmo, que as pessoas aparecem e desaparecem em nossas histórias sem um objetivo definido e sem uma participação realmente relevante. Mas por mais "próximo da vida real" que um filme seja, ele ainda é um filme, e me incomoda que tantas partes do enredo sejam tão inconclusivas. É claramente uma escolha artística e portanto, pode agradar aos espectadores mais alinhados com esse tipo de desenvolvimento.
 
O filme segue, durante quase duas horas de duração, o ritmo temperado com o qual o protagonista fala, mas ele não é entendiante. É como se você estivesse assistindo toda a história de uma forma marinada, os pedaços que vão pouco a pouco se conectando - ou não - e existe essa sensação, vinda de um ponto de vista inebriante, flutuante. E ainda tem David Byrne dando uma canja incrível no filme, cantando This Must Be the Place, música do Talking Heads que é o título original do longa. Já vale a ida ao cinema, com toda certeza.
Autor da crítica
Claudia Ideguchi
Jornalista que queria ser bailarina ficou feliz com as danças que a informação dá e com o jogo de cintura que a notícia pede. Ou se dança conforme a música ou se vê os outros dançarem com seu parceiro favorito. Amante do lado B do cinema blockbuster, não perde a chance de ver o novo arrasa-quarteirão do mercado ou dar aquela suspirada na comédia romântica previsível.