Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge
Em Christopher Nolan nós acreditamos
27/07/12 às 17:21 - Por Claudia Ideguchi
Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge
The Dark Knight Rises
Estados Unidos , 2012 - 120 min. Ação, Drama.
Direção: Christopher Nolan
Roteiro: Christopher Nolan, Jonathan Nolan
Elenco: Christian Bale, Gary Oldman, Michael Caine, Morgan Freeman, Tom Hardy, Anne Hathaway, Joseph Gordon-Levitt, Marion Cotillard, Juno Temple.
Sinopse: Oito anos depois da morte de Harvey Dent, Gotham passa por um período de tranquilidade, mas a Liga das Sombras ataca a cidade novamente, agora com Bane, e Batman se vê forçado a voltar à ação.


Eu comecei esse texto de várias maneiras, porque não queria em momento algum que minha visão como fã de Batman/Christopher Nolan/Joseph Gordon-Levitt interferisse na minha visão como jornalista. Tentei pesar de maneira calculada o que era de fato bom e o que era piração de fã e também levar em consideração, como sempre faço, todos os tipos de espectadores que podem ser afetados pelo filme. Mas a verdade, nua e crua, é que em alguns momentos a coisa mais profissional que podemos fazer é deixar o lado pessoal falar mais alto. Pode não ser a crítica mais certeira ou imparcial dentre todas as outras que já pipocaram e pipocarão pela rede, mas com certeza será um texto dotado da maior honestidade possível.

 
Após um começo mais que satisfatório com Batman Begins e do sucesso absoluto com Batman: O Cavaleiro das Trevas, a expectativa para o filme que encerraria a trilogia era grande. O medo do fracasso também. Depois de exemplos dolorosos de terceiros filmes que não chegaram aos pés de seus antecessores (Homem-Aranha de Sam Raimi e Matrix dos Wachowski estão aí para não me deixar mentir) e com a lembrança do Coringa espetacular de Heath Ledger, as apostas não pareciam a favor de Nolan e sua equipe. A desconfiança só foi aumentando conforme a produção avançava, "Bane como vilão principal?", "Anne Hathaway como Mulher-Gato?", "Joseph Gordon-Levitt como um simples policial de Gotham?", deixando os corações cada vez mais aflitos. 'Em Nolan nós confiamos', é um frase recorrente entre os fãs do diretor mas será que ele conseguiria realmente superar seu filme anterior, encerrar a trilogia de forma bem sucedida e tudo com esses elementos tão peculiares?
 
O que a gente costuma esquecer, no calor do momento, é que o roteiro é bom. Heath Ledger fez um trabalho impecável e mereceu seu Oscar póstumo, mas seria difícil ele fazer o mesmo trabalho caso o texto que ele tivesse que interpretar não fosse igualmente espetacular. E a história dos irmãos Nolan para o Batman é impecável, uma jornada que se divide sim em três filmes, mas que ao mesmo tempo conta com uma linearidade, coesão e unidade que a transformam em um grande conto sobre o Cavaleiro das Trevas. E pensando nisso tudo, o filme dá certo e Nolan consegue entregar um final de trilogia com seus tropeços e erros, mas com uma sensibilidade e coerência que emocionam.
 
 
Christian Bale mostra sua melhor atuação como Batman. Seu Bruce Wayne se mistura com o vigilante mascarado e todas as suas escolhas demonstram uma profundidade que só pode ser interpretada por alguém que compreendeu a verdadeira natureza de sua personagem. Batman é um herói com o qual o público consegue sentir-se próximo devido a sua 'humana, demasiada humana' fragilidade: ele é um herói sem poderes especiais, um herói de carne e osso e que pode morrer. Portanto, a determinação altruísta que ele demonstra nos captura de maneira inescapável, Bruce Wayne ganha nosso respeito e nossa admiração ao se arriscar. E Bale transforma toda essa fragilidade e determinação em uma atuação convincente, envolvente e profunda. 
 
Toda a primeira parte do longo filme é dedicada a apresentação dos novos personagens - Bane, Selina Kyle, John Blake e Miranda Tate - e ao vagaroso retorno de Bruce Wayne à ativa após oito anos aposentado. E é uma obrigação comentar a respeito de Bane e Selina, maiores vítimas da desconfiança do fãs: Eles destróem. Fã do trabalho de Tom Hardy (vocês devem assistir Bronson, com toda certeza), não me decepcionei em nenhum momento com sua interpretação no longa. Bane é mentalmente perigoso, um psicopata de dar medo como todos os outros, mas fisicamente seu poder é assombroso. Mesmo com a máscara que nos impede de ver as expressões de Hardy em sua totalidade, ele tem essa qualidade de interiorizar sua personagem e mostrar o que ela sente e pensa através de sua expressão corporal e seus olhos. Os olhos de Tom Hardy são intensos, dão medo e demonstram, no momento ideal tudo que há por trás dos atos terroristas contra Gotham. A voz, que apesar de não confirmado, parece ter sido regravada para ser melhor compreendida incomoda muito menos do que eu imaginei e chega até a intimidar quando ressoa em cena.
 
Anne Hathaway surpreende porque a Mulher-Gato escrita para ela é surpreendente. Elegante e com um humor afiado, Selina Kyle age dentro de sua própria moral que nem é tão distorcida assim. Notavelmente uma mulher bonita, Hathaway é moderada no uso da sensualidade e sua presença dentro da história se vale muito mais por seu poder e sua inteligência que por seu rostinho bonito. Selina funciona e se encaixa no universo criado por Nolan como uma luva, ela é fruto daquela cidade, é parte de sua rotina e Hathaway sintetizou todas essas peculiaridades da personagem em movimentos precisos e olhares decididos. Talvez sua escolha para interpretar a personagem tenha sido uma surpresa, mas a escolha mostrou-se gratificantemente acertada e a atriz pode se orgulhar da carismática interpretação que vemos no filme.
 
 
O ritmo desse começo é vagaroso, mas ele é feito para quem gosta de ver/ler boas histórias. Nenhuma cena é um desperdício em Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge, elas farão a diferença no decorrer do filme, serão amarradas em algum momento, portanto, convém que se assista tudo de maneira intensa. É verdade que para os mais aflitos toda essa lentidão possa entediar, mas aguentem firme. Alguns diálogos são puro ouro e devem ser apreciados. Mesmo porque logo chega a segunda parte e a respeito disso, a única coisa que se pode falar sem adiantar nenhum detalhe importante da trama é que tudo faz sentido. 
 
Nem tudo são flores, claro, existem alguns absurdos no enredo, existem forçadas de barras, existem perguntas sem respostas, e clichês, muitos clichês principalmente nos 10 minutos finais do filme mas tudo isso faz parte da mise en scène criada por Nolan, uma maneira de nos envolver em sua fantasia sem realmente nos importamos com comos ou porquês. Alguns absurdos são criados propositalmente para dar força à determinada ação no filme e se você não se importar com esses recursos, dificilmente ficará incomodado. Os erros desse terceiro filme são insignificantes se comparados com seus acertos.
 
A verdade final e derradeira é que filme é bom. Não bom dentro de um determinado nicho ou para determinado grupo de pessoas, o filme é bom como um filme bom. Christopher Nolan elevou os tais "filmes de super-heróis" para um patamar onde eles são aceitos e admirados como obras de arte e também assistidos por pessoas que jamais leram uma história em quadrinho ou que em algum momento se interessaram pelo herói. O longa tem essa qualidade de agradar uma gama bastante expressiva de pessoas e deve ser elogiado por isso. 
 
"A hero can be anyone"
Autor da crítica
Claudia Ideguchi
Jornalista que queria ser bailarina ficou feliz com as danças que a informação dá e com o jogo de cintura que a notícia pede. Ou se dança conforme a música ou se vê os outros dançarem com seu parceiro favorito. Amante do lado B do cinema blockbuster, não perde a chance de ver o novo arrasa-quarteirão do mercado ou dar aquela suspirada na comédia romântica previsível.
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