Na Estrada
Valeu a salva de palma de 10 minutos em Cannes
13/07/12 às 15:19 - Por Claudia Ideguchi
Na Estrada
On the Road
Estados Unidos , 2012 - 140 min. Drama.
Direção: Walter Salles
Roteiro: Jose Rivera
Elenco: Garrett Hedlund, Sam Riley, Kristen Stewart, Viggo Mortensen, Kirsten Dunst, Amy Adams, Steve Buscemi, Elisabeth Moss, Terrence Howard e Alice Braga
Sinopse: Sal Paradise (Sam Riley) é um aspirante a escritor que acaba de perder o pai. Ao conhecer Dean Moriarty (Garrett Hedlund) ele é apresentado a um mundo até então desconhecido, onde há bastante liberdade no sexo e no uso de drogas. Logo Sal e Dean se tornam grandes amigos, dividindo a parceria com a jovem Marylou (Kristen Stewart). Os três viajam pelas estradas do interior do Estados Unidos para fugir de uma vida monótona e regrada.
"Para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo agora, aqueles que nunca bocejam e jamais falam chavões, mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício"
 
Na Estrada, mais que uma adaptação literal do livro, é uma adaptação sensorial. Para os que nunca leram a obra de Jack Kerouac, será um filme mais do que eficiente, mas para os que leram, sobrará arrepios na pele. Não porque Walter Salles siga a risca o que acontece no livro, porque não segue, mas sim porque capta a intenção de cada passagem, as emoções tácitas que as personagens vivem e traduz isso em cena. 



A história fala sobre Sal Paradise, um escritor que logo após a morte de seu pai conhece uma figura que mudaria para sempre o rumo de sua vida. Mesclando a história com começo, meio e fim da amizade entre Sal e Dean Moriarty e suas andanças pelas estradas norte-americanas, o filme também fala sobre uma geração libertária, que deseja viver e sentir as coisas como nunca antes nos anos 50.

 
O elenco, recheado de estrelas, se despe totalmente de qualquer narcisismo ou individualismo, doam-se totalmente ao filme. Sam Riley, que interpreta o protagonista Sal Paradise e Kristen Stewart, que vive Marylou, são competentes e críveis. Sim, Stewart me surpreendeu com uma atuação que não lembra em nada sua personagem Bella Swan que rendeu fama mundial a ela. Ainda não tem carisma, não tem apelo para mim, mas fiquei feliz por ver um novo lado dela.
 
O destaque, no entanto, fica para Garrett Hedlund, conhecido por seu papel em Tron: O Legado. Com a missão mais difícil de todo o filme - dar vida a um dos personagens mais mitológicos da literatura - o ator esbanja talento e controle. Surpresa para mim, que achava incapaz que qualquer pessoa pudesse interpretar Dean Moriarty e ainda mais Hedlund! Precisei morder a língua. Ele não é, como nada do filme, uma cópia escancarada do que vemos no livro, mas mantém a energia inebriante que instiga e faz com que Sal encare a estrada e viva tudo como se fosse a última vez.
 
O livro de Kerouac, On The Road, que inspirou o filme foi considerado por anos impossível de ser adaptado para as telas. Faz sentido. A narrativa verborrágica e natural, quase beirando a displicência, traz e descarta um sem-número de personagens e como numa vertigem não se preocupa com métrica ou estilo. Portanto é de se admirar o fato de finalmente vermos essa história no cinema. On The Road, também, não é dos livros mais fáceis e portanto, pode ser que muita gente não consiga se entregar ao ritmo e estética quase documental da vida na estrada que Salles impõe. Acredito que seja cansativo e que as muitas cenas bucólicas da viagem entediem os mais dinâmicos.

 
Mas não se deixe enganar, porque Na Estrada é muito menos sobre a estrada e muito mais sobre as pessoas que passam por ela. Agindo como um força transformadora, a estrada é a ferramenta que molda os espíritos libertários que acompanhamos, que desconhecem os limites. E essa é toda a graça. Toda a graça do livro e do filme, não ter necessariamente que chegar em lugar algum, ter algo a dizer, alguma moral a defender.

Recebido friamente pela crítica internacional, o filme foi ovacionado por 10 minutos em Cannes em sua sessão aberta ao público. Dessa vez, eu fecho com a galera. Sou fã declarada de Kerouac, On The Road e Walter Salles, mas realmente acredito que esse filme possa capturar todo o tipo de pessoa. Porque ele diz algo através de gestos e do jazz que jamais poderia ser totalmente compreendido apenas com palavras. Parece pouco, parece incompleto. Vale a ida, mesmo que seja para que vocês venham me contrariar depois. 
 
 
"(...) E ninguém, ninguém sabe o que vai acontecer a qualquer pessoa, além dos desamparados andrajos da velhice, eu penso em Dean Moriarty; penso até no velho Dean Moriarty, o pai que jamais encontramos; eu penso em Dean Moriarty."
 
Autor da crítica
Claudia Ideguchi
Jornalista que queria ser bailarina ficou feliz com as danças que a informação dá e com o jogo de cintura que a notícia pede. Ou se dança conforme a música ou se vê os outros dançarem com seu parceiro favorito. Amante do lado B do cinema blockbuster, não perde a chance de ver o novo arrasa-quarteirão do mercado ou dar aquela suspirada na comédia romântica previsível.
Matérias relacionadas
12/11/14
Uma das comédias mais tradicionais dos anos 90 acaba de ganhar uma continuação que...
08/01/14
"Porque se eu não escrever o que eu vejo acontecer nesse globo infeliz arredondado...
12/07/12
Baseado na obra On The Road, de Jack Kerouac, o filme Na Estrada chega aos cinemas...
02/07/12
Rolou agora ao meio dia no Playarte Splendor Paulista a coletiva de imprensa do filme...