Prometheus
O triunfal retorno de Ridley Scott ao universo que concebeu
15/06/12 às 10:00 - Por Makson Lima
Prometheus
Prometheus
Estados Unidos , 2012 - 124 min.. Ação, Terror, Ficção Científica.
Direção: Ridley Scott
Roteiro: Jon Spaihts e Damon Lindelof
Elenco: Noomi Rapace, Michael Fassbender, Charlize Theron, Idris Elba, Guy Pearce, Sean Harris, Kate Dickie, Logan Marshall-Gree e Patrick Wilson
Sinopse: Uma equipe de cientistas e exploradores faz uma jornada aos confins do universo para desvendar o mistério da origem da humanidade.

Grandes expectativas quase sempre levam a grandes decepções. Dizem que um dos segredos para a felicidade perpetuada é manter as expectativas baixas com relação a praticamente tudo nesta vida acelerada que levamos. Pois bem, fugindo completamente deste pensamento pessimista e vil, esperei Prometheus como criança espera pela vinda do verdadeiro Toddynho branco. Entenda: tenho em Alien um dos grandes filmes de minha vida. Era um mancebo desprovido de ambições e valores quando me deparei com o ser gigeriano pela primeira e, desde então, tal imagem nunca mais abandonou minha mente. Uma mistura temerosa de fascínio e pavor. De tempos em tempos, assisto a Alien pelo puro prazer mórbido de me sentir fazer parte da concepção e criação de tal subgênero tão específico e prolífero no vasto mundo da ficção-científica. Dizer que Alien foi o primeiro sci-fi de horror é tão certo quanto afirmar que O Exorcista é o maior filme de terror de todos os tempos.

Particularidades e devaneios a parte, Prometheus trata-se – antes de entrarmos no filme propriamente dito – do retorno do grande diretor Ridley Scott ao universo que criou e o consagrou. Vindo de inúmeras grandes produções, que vão do panorama épico de Gladiador a versatilidade bélica de Falcão Negro em Perigo, o senhor britânico de mais de setenta anos já mostrou vezes sem fim o quão poderosa é sua visão por trás das câmeras. Partindo deste ponto de vista, Prometheus soa como um capricho de sua parte, uma verdadeira homenagem para si mesmo, e sem requintes de prepotência ou pedância, muito pelo contrário, pois somos nós, a audiência ávida por filmes de exploração de verdade, quem sai ganhando.

Dotado de uma campanha de marketing brutal, que gerou inúmeros virais incríveis permeados por sites falsos e fóruns de sustentabilidade extremamente prazerosos de se acompanhar, foi difícil escapar de Prometheus. De uma maneira ou de outra, por mais alheio a cinema ou ao gênero que você possa ser, seria mentira afirmar que algo não pegou seu olhar. Seja com desdém ou fascinação, seja a conclusão obtida ao término de um trailer um suspiro de alívio ou uma empolgação gestante, nasce algo no interior de todos aqueles que se deparam com Prometheus. Uma pena que, em alguns casos, o que nasça não seja uma larva de Alien das mais dotadas.

Assumidamente uma pré-continuação aos eventos desenrolados no longa de 1979 (o qual, numa sacada de mestre e diferente do que víamos até então, não especifica datas em sua trama), Prometheus nasce com passeios mirabolantes por um planeta não de todo desconhecido. As montanhas são cinzentas, o solo rochoso e os lagos plácidos, mas há algo de errado com aquelas paisagens. E o surgimento de um humanóide insólito nos prova que não estamos na Terra.



Depois da deslumbrante seqüência inicial, somos apresentados aos arqueólogos (ou seriam biólogos?) protagonistas da trama, Elizabeth Shaw, vivida por Noomi Rapace, e Charlie Holloway, papel de Logan Marshall-Green. Por mais que Rapace seja o destaque máximo do casal, Marshall-Green tem em um momento de embriaguez um dos grandes diálogos do filme. Estamos no futuro e em uma expedição arqueológica na Escócia leva os desbravadores a se depararem com pinturas rupestres em uma caverna ainda não descoberta pela civilização moderna. Uma das grandes características de Prometheus é justamente esse senso de descoberta do desconhecido que se desenrola cena atrás de cena. Mais uma vez, um mapa estelar se equipara ao encontrado em diversas outras cavernas em diversas regiões no mundo, advindos de civilizações completamente distintas umas das outras. Tal descoberta ganha atenção de uma grande corporação, a Weyland-Yutani, detentora de centenas de bilhões de dólares e que decide investir na expedição para que encontrem o local onde tais mapeamentos idênticos apontam.

Encabeçando a nova expedição intergalática temos Charlize Theron como a fria e dura Meredith Vickers, que dá ordens aos tripulantes com precisão cirúrgica. A presença do CEO da companhia após uma projeção holográfica sensacional, permeia os ares da aeronave mais cara já criada, Prometheus, em uma atuação absolutamente incrível de um Guy Pearce envelhecido e moribundo. Além, claro, de bilionário, genial e detentor do nome Weyland.

Prometheus sempre se vendeu como um filme que desbravaria as origens da humanidade, e isto está presente: Shaw é uma cientista competente e muito religiosa (agente Scully? Alguém?), e parte em busca do desconhecido com a certeza de estar no caminho para se deparar com seus criadores, com aqueles que as civilizações terrestres clamam por deuses e, logo, para com a origem e propósito da vida. Este é o mote da trama, e até mesmo o incrível personagem vivido pelo sempre pontual Michael Fassbender, o andróide David, faz uso de tiradas filosóficas e sacadas de filmes que assistiu a exaustão para exprimir sua opinião robótica para o tema. Acredite, David por si só vale o preço do seu ingresso.

E colocar o filme desta forma, como pueris valores monetários, simplesmente não se encaixa aqui. Por mais que você não se interesse por uma temática futurista, por esquisitisses alienígenas e naves interplanetárias, Prometheus se mostra válido por seu incrível poder visual. Assisti-lo em qualidade máxima e na sala de projeção mais deslumbrante possível é quase que um pré-requisito, pois o filme é nada além de estonteante. Até mesmo o aspecto 3D foge do que temos de baciada hoje em dia: trata-se de um tratamento sutil, sem a rapidez de arremessar coisas na tela a todo instante. As camadas se sobrepõe, gerando profundidade nas cenas e aumentando consideravelmente a imersão. Um trabalho técnico primoroso. Um novo marco para o gênero, ousaria dizer.
 


Descrever locações e naves em si seria contar demais, mas deixo a afirmação de que os fãs ávidos da série encontrarão com o que se deliciar em praticamente todas as seqüências, pois há elementos escondidos que ligam os filmes e fazem tudo ter muito sentido. Há muita gente por aí que precisa de diálogos mastigados para considerarem como bom um roteiro, ao passo que se esquecem de observar o que há “escrito” nos elementos visuais presentes.

E os amantes da parte mais gore da quadrilogia Alien também não irão se decepcionar, pois os momentos grotescos aqui são inúmeros. Coloco como especial a cena que envolve uma máquina ultra-moderna que realiza operações cirúrgicas de forma robotizada. Nenhuma produção recente conseguiu misturar o horror com a ficção-científica de forma tão perfeita.

Prometheus não tenta ser a revolução que seu progenitor foi de forma tacanha e até certo ponto ingênua. Diria até que nem mesmo tenta fazer frente ao seu criador, como uma reverência de pupilo para mestre. O que temos aqui é um filme de descoberta como há tempos não víamos, com o real desejo de desbravar o desconhecido, por mais assustador que este possa parecer. Ridley Scott, cercado por uma equipe extremamente competente e por um elenco de qualidade incontestável, mostra que ainda tem seu taco calibrado e suas lentes com visão além do alcance, elementos indispensáveis para se criar um futuro incerto, mas que, de uma forma ou de outra, irá nos alcançar.

Autor da crítica
Makson Lima
Fã de jogos de terror e RPG japonês, é completamente maluco por cinema e rock'n'roll. Alfred Hitchcock e David Lynch são seus diretores do coração, mas não troca um filme de George Romero ou David Cronenberg por nada no mundo. Tem como séries favoritas Resident Evil, Shin Megami Tensei, Final Fantasy e, claro, Silent Hill. Acha crueldade demais fazer uma lista tão breve com os filmes de sua vida, além de detestar falar sobre si mesmo na terceira pessoa.
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