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Mal Passado #03 - Nekromantik
18/04/12 às 19:35 - Por Makson Lima



Jörg Buttgereit. Marque esse nome, meu camarada. Caso você ainda não tenha cruzado caminhos com nenhuma de suas obras, acho que chegou a hora. Temos aqui um alemão demente (no melhor sentido da palavra) que tem uma visão absolutamente ímpar de diversos aspectos da sociedade moderna. Toda essa excentricidade e peculiaridade podem ser testemunhadas em seus longas.

Buttgereit foi muito influenciado por um dos maiores movimentos do cinema mundial, o Cinema Novo Alemão, de Alexander Kluge. Por mais que o diretor transite por estilos no início de sua carreira, é bastante evidente quando ele se firma como cineasta profissional onde estão suas raízes.

Suas obras apresentam baixo orçamento, abordam temas pesadíssimos (e considerados tabus em muitas culturas), só podendo ser apreciados por aqueles que estão dispostos a ir até o fundo do poço cinematográfico. Já vou avisando que o negócio é pesado, não é para qualquer um e deve ser aproximado com cautela - afinal, este é o propósito desta maldita coluna.

No filme desta semana, Nekromantik - não, você não está entendendo errado: temos aí necrofilia e romântico num anacronismo básico - o tema em questão é o relacionamento entre um homem, uma mulher e seres humanos em decomposição.

A sequência inicial já dá o tom de todo o longa: um acidente de carro e legistas trabalhando para limpar a área dos corpos mutilados. Entre eles o herói da história, Rob Schmadtke, empregado de uma companhia especializada em remover cadáveres de vias públicas. Rob vive com sua namorada, Betty, e os dois compartilham um bizarro fetiche: gente morta.



Apesar da relação protagonizar as grandes cenas do filme (com exceção do final, que é algo que marcará sua vida para sempre), a narrativa foca nos dois mundos absolutamente distintos nos quais Rob vive. Aquele do trabalho, dos colegas e das dificuldades da vida adulta, e de seu mundo perverso de necrofilia e satisfação.

O filme traz cortes bruscos entre diálogos e cadáveres em decomposição que não são à toa. A crítica de Buttgereit se apresenta na forma nada sutil como compara a vida de zumbis que muitos levam, intoxicando filhos e gerações com os mesmos ensinamentos de como a vida deve ser vivida e os próprios cadáveres que na verdade são.

Por mais que o filme apresente uma violência gráfica das mais extremas (a cena do coelho vivo sendo escalpelado talvez tenha sido forte demais, mesmo com propósito de existir), a mensagem por trás é ainda mais poderosa. Só posso comparar neste aspecto Nekromantik com uma obra do peso de um Cannibal Holocaust (filme este que será abordado por aqui da maneira correta quando chegar a hora).



Mesmo com o baixo orçamento que tinha à disposição (o diretor realizou tudo com dinheiro do próprio bolso), as cenas chocam. Não é porque a parte técnica fica muitíssimo aquém daquilo que vemos hoje em dia que o peso do que estamos vendo diminuirá. Confesso que em sua continuação, Nekromantik 2, também dirigida por Buttgereit, as cenas mais ousadas e que envolvem mais vísceras, digamos assim, são mais eficazes por conta dos maiores valores de produção. Mas este não é o ponto: é para mim um deleite quase sem precedentes assistir um filme como esse, não porque compartilho do fetiche dos personagens em questão, muito pelo contrário, mas porque vejo no cinema uma forma artística livre, onde pensamentos indizíveis e visões utópicos podem tomar forma e existir.

Abordaremos futuramente toda a obra de Jörg Buttgereit, um diretor alemão que consegue colocar na película suas visões de mundo, medos e angústias. Portanto você, fã do lado mais obscuro da sétima arte, atente ao site de PlayTV de tempos em tempos. A satisfação é garantida. Mas antes de partir, a citação que sintetiza Nekromantik:

“Para cada homem que se refere a isto com respeito e temor, o cadáver é a imagem de seu próprio destino. Ele dá testemunho de uma violência que destrói não um só homem , mas todos os homens no final.” – Georges Bataille

Autor do especial
Makson Lima
Fã de jogos de terror e RPG japonês, é completamente maluco por cinema e rock'n'roll. Alfred Hitchcock e David Lynch são seus diretores do coração, mas não troca um filme de George Romero ou David Cronenberg por nada no mundo. Tem como séries favoritas Resident Evil, Shin Megami Tensei, Final Fantasy e, claro, Silent Hill. Acha crueldade demais fazer uma lista tão breve com os filmes de sua vida, além de detestar falar sobre si mesmo na terceira pessoa.
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